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March 13, 2010

O Prazer Armado

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Alfredo M. Bonanno

Introdução
Este livro foi escrito em 1977 no ímpeto das lutas revolucionárias que tomavam lugar na Itália naquela altura, e essa situação, agora profundamente diferente, deve ser tomada em conta quando o lemos hoje. O movimento revolucionário, incluindo o anarquista, estava em fase de desenvolvimento e tudo parecia possível, mesmo uma generalização do confronto armado. Mas era necessário uma pessoa proteger-se do risco de especialização e militarização que uma restrita minoria de militantes tinha intenção de impor em dezenas de milhares de companheiros que estavam lutando com todos os meios possíveis contra a repressão e contra a tentativa do Estado – bastante fraca, na verdade – de reorganizar a gestão do capital. Essa era a situação na Itália, mas algo semelhante estava acontecendo na Alemanha, na França, na Grã Bretanha e em outros lugares. Parecia essencial evitar que as muitas ações contra os homens e estruturas do poder levadas a cabo pelos companheiros no dia-a-dia fossem arrastadas para a lógica planejada de um partido armado como as Brigadas Vermelhas na Itália.
Este é o espírito do livro. Mostrar como uma prática de libertação e destruição pode emergir de uma lógica de luta alegre, não de uma rigidez mortal e esquemática, dentro da doutrina de um grupo dirigente. Alguns destes problemas já não existem, foram resolvidos pelas duras lições da história. O colapso do verdadeiro socialismo redimensionou de repente as ambições diretivas de marxistas de todas as tendências, para sempre. Por outro lado, isso não extinguiu, possivelmente até atiçou, o desejo de liberdade e de comunismo anarquista que se está a espalhar por todo o lado, especialmente entre as gerações jovens, em muitos casos sem recorrer aos tradicionais símbolos do anarquismo, sendo que os seus slogans e as suas teorias são também considerados, com uma recusa visceral que é compreensível mas não partilhada, estarem afetados com ideologia.
Este livro tornou-se novamente tópico, mas de um modo diferente. Não como crítica de uma estrutura altamente monopolizadora que não mais existe, mas porque pode salientar as potentes capacidades da pessoa no seu percurso, com prazer, para a destruição de tudo o que o oprime e regula.
Antes de terminar, devo referir que o livro foi mandado ser destruído na Itália. O Supremo Tribunal Italiano ordenou que fosse queimado. Todas as bibliotecas que tinham um exemplar receberam uma circular do Ministério do Interior ordenando a sua incineração. Mais de um bibliotecário recusaram queimar o livro, considerando tal prática digna dos Nazistas ou da Inquisição, mas pela lei o volume não pode ser consultado. Pela mesma razão, o livro não pode ser distribuído legalmente na Itália e muitos companheiros viram as suas cópias serem confiscadas durante uma grande vaga de raids levada a cabo com esse propósito.
Fui condenado a dezoito meses de prisão por escrever este livro.

Alfredo Bonanno
Catania, 14 de Julho de 1993

Em Paris, 1848, a revolução era um feriado sem começo nem fim
Bakunin

I
Por que raio é que estas queridas crianças atiraram Montanelli nas pernas? Não teria sido melhor atirarem na boca? Claro que teria. Mas também teria sido mais pesado, vingativo e sombrio. Estropiar uma besta daquelas pode ter um lado mais profundo, mais significativo, que vai para além da vingança, de o punir pela sua responsabilidade, pelo jornalista fascista e lacaio patronal que ele é. Aleijá-lo  obriga-o a mancar, o faz lembrar-se. Ainda mais, aleijar é uma diversão mais agradável do que atirar na boca, com pedaços de cérebro esguichados através dos olhos.
O companheiro que se levanta todas as manhãs e pelo nevoeiro caminha até a sufocante atmosfera da fábrica, ou do escritório, apenas para ver as mesmas caras: o chefe, o relógio, o espião do momento, a acionista-com-sete-crianças-para-alimentar, sente a necessidade de revolução, de luta e de confronto físico, mesmo que mortal. Mas também quer dar a si mesmo algum prazer agora; já. E alimenta este prazer nas suas fantasias enquanto caminha de cabeça baixa no nevoeiro, gasta horas em ônibus ou trens, sufoca nas idas sem sentido ao escritório ou no meio dos inúteis parafusos que servem para manter juntos os inúteis mecanismos do capital. Alegria remunerada; fins-de-semana fora ou férias anuais pagas pelo patrão é como pagar para fazer amor. Parece o mesmo, mas há algo que falta.
Centenas de teorias são empilhadas em livros, panfletos e jornais revolucionários. Devemos fazer isto, fazer aquilo, ver as coisas da maneira que este disse ou que aquela disse, pois eles são os verdadeiros intérpretes destes ou daqueles do passado, aqueles em letras maiúsculas que preenchem os sufocantes volumes dos clássicos. Mesmo a necessidade de os manter à mão faz tudo parte do ritual. Não tê-los seria mau sinal, seria suspeito. Em qualquer caso, é útil tê-los à mão. Sendo pesados, sempre poderiam ser arremessados na cara de algum incômodo. Não uma nova mas todavia, uma saudável confirmação da validade dos textos revolucionários do passado (e do presente).
Nunca há nada sobre prazer nestes volumes. A austeridade do convento não tem nada a invejar sobre a atmosfera que se respira nas suas páginas. Os seus autores, párocos da revolução da vingança e castigo, passam o tempo pesando culpa e retribuição. Ainda mais; estas pessoas puras em calças jeans fizeram um voto de castidade, portanto também o exigem e impõem. Querem ser recompensadas pelo seu sacrifício. Primeiro, abandonaram o ambiente confortável da sua classe de origem, e depois colocaram as suas habilidades à disposição dos deserdados. Cresceram com o hábito de usar palavras que não são as suas e de fumar uns com a mesa suja e as camas desarrumadas. Portanto, deve-se pelo menos ouvi-las.
Sonham com revoluções ordeiras, princípios primorosamente desenhados, anarquia sem turbulência. Se as coisas tomam um rumo diferente, começam a gritar provocações, berrando suficientemente alto para a polícia os escoltar.
Revolucionários são pessoas devotas.  A revolução não é.

Eu chamo um gato um gato
Boileau

II

Todos estamos preocupados com o problema revolucionário de como e o quê produzir, mas ninguém é capaz de dizer que produzir é um problema revolucionário. Se a produção está na raiz da exploração capitalista, mudar o modo de produção iria meramente mudar o modo de exploração. Um gato, mesmo que o pinte de vermelho, continua sendo um gato. O produtor é sagrado. Tire as mãos! Santifica o seu sacrifício em nome da revolução, e les jeux son faits. “E o que é que iremos comer?” perguntam as pessoas preocupadas. “Pão e cordas de guitarra?”, dizem os realistas, com um olho no pote e o outro na pistola. “Idéias”, declaram os confusos idealistas, com um olho no livro dos sonhos e o outro na espécie humana. Alguém que toque na produtividade está feito. O capitalismo e aqueles que o combatem se sentam lado a lado com o cadáver do produtor, mas a produção tem de continuar.
A crítica da economia política é uma racionalização do modo de produção com o mínimo esforço (por aqueles que gozam dos benefícios de tudo). Todos os outros, aqueles que sofrem exploração, devem tomar o cuidado de verificar se não falta nada. De outro modo, como viveríamos? Quando sai para a claridade, o filho da escuridão nada vê, tal como quando andava as apalpadelas no escuro. O prazer o cega. O faz franzir-se. Por isso ele diz que é uma alucinação e condena o prazer. O flácido e gordo burguês se aquece, sentado em opulenta ociosidade. Portanto o prazer é pecaminoso. Isso significaria partilhar as mesmas sensações que a burguesia e trair o proletariado produtivo. Não seja por isso. O burguês vai muito longe para manter o processo de exploração em andamento. Ele também está stressado e nunca encontra tempo para o prazer. Os seus cruzeiros são ocasiões para novos investimentos, Suas amantes agentes infiltrados para obter informação
sobre os concorrentes. O deus da produtividade mata mesmo os seus discípulos mais fiéis. Arranca as suas cabeças, irá derramar nada mais do que uma montanha de lixo. O desgraçado esfomeado alberga sentimentos de vingança ao ver os ricos rodeados pelo seu servil séquito. Acima de tudo, o inimigo deve ser destruído. Mas salvem a pilhagem. A riqueza não deve ser destruída, deve ser usada. Não interessa o que é, que forma toma ou que perspectivas de aplicação permite. O que importa é arrancá-la de quem quer que a tenha na altura, para que toda a gente tenha acesso a ela. Toda a gente? Claro, toda a gente E como irá isso acontecer? Com violência revolucionária. Boa resposta. Mas a sério, o que é que vamos fazer após cortarmos tantas cabeças que já estejamos fartos? O que é que vamos fazer quando já não houver mais proprietários  de terras para serem encontrados, mesmo que vamos procura-los com lanternas?
Então, será o reino da revolução. A cada um segundo as suas necessidades, de cada um segundo as suas possibilidades. Presta atenção, companheiro. Há um cheiro de relatórios financeiros no ar.  Estamos a falar de consumo e produção. Ainda está tudo na dimensão da produtividade. A aritmética te faz sentir seguro. Dois e dois faz quatro. Quem questionaria esta “verdade”? Os números comandam o mundo. Se o fizeram até agora, por que não continuariam? Todos nós precisamos de algo sólido e duradouro. Pedras para construir um muro para deter os impulsos que começam a chocar-nos. Todos nós precisamos de objetividade. O patrão jura com a carteira, o agricultor com a enxada, o revolucionário com a arma. Deixe entrar uns raios de criticismo e toda a estrutura cai por terra. Na sua pesada objetividade, o mundo do dia-a-dia nos condiciona e nos reproduz. Todos somos filhos da banalidade diária. Mesmo quando falamos sobre “coisas sérias” como a revolução, os nossos olhos continuam colados ao calendário. O patrão teme a revolução porque iria priva-lo de sua riqueza, o agricultor a faria para obter um pedaço de terra, o revolucionário para testar a sua teoria. Se o problema for visto nestes termos, não existe diferença entre carteira, terra e teoria revolucionária. Todos esses objetos são bastante imaginários, simples espelhos da ilusão humana. Apenas a luta é real. Ela distingue patrão de agricultor e estabelece a ligação entre agricultor e o revolucionário. As formas de organização que a produção toma são veículos ideológicos para esconder a ilusória identidade individual. Esta identidade é projetada no conceito econômico ilusório “preço”. Um código estabelece a sua interpretação.  Os patrões controlam parte deste código, como vemos no consumismo. A tecnologia de guerrilha psicológica e de repressão total dá também o seu contributo para fortalecer a ideia de que produzir é a condição para se ser humano. Outras partes do código podem ser modificadas. Não podem sofrer a mudança revolucionária mas são simplesmente ajustadas de tempos em tempos. Pense, por exemplo, no consumismo em massa que substituiu o consumismo de luxo com o passar dos anos. E depois também há formas mais refinadas, como o controle auto-gestionado da produção. Outro componente do código de exploração. E por aí vai. Qualquer pessoa que decida organizar a minha vida por mim nunca podera ser meu camarada. Se tentarem justificar isso com a desculpa de que alguém tem de produzir, e que caso contrário todos perderíamos a nossa identidade como seres humanos e seríamos submetidos pela “natureza indisciplinada, selvagem”, nós respondemos que a relação humano-natureza é
produto da iluminada burguesia marxista. Porque é que quiseram transformar uma espada num ancinho? Porque é que o humano tem constantemente de lutar para se distinguir da natureza?

Humanos, se eles não conseguem alcançar o que é necessário, cansam-se com o que é inútil
Goethe

III
O ser humano necessita de muitas coisas. Esta alegação é normalmente usada para dizer que os humanos tem necessidades das quais é obrigado satisfazer.
Deste modo, as pessoas se transformam de unidades historicamente determinadas em uma dualidade (meio e fim simultaneamente).Se realizam através da satisfação das suas necessidades (i.e. através do trabalho), portanto se tornam  o instrumento da sua própria realização. Qualquer pessoa consegue ver quanta mitologia está disfarçada em alegações deste tipo. Se o humano se distingue da natureza pelo trabalho, como pode ele se completar  na satisfação das suas necessidades?  Para isso, já teria se tornado humano, e portanto completado as suas necessidades, o que significa que não teria de trabalhar. As mercadorias têm um conteúdo profundamente simbólico. Elas tornam-se uma referência, uma unidade de medida, um valor de troca. Começa o espetáculo. Os papéis são distribuídos e se reproduzem a si mesmos até ao infinito. Os atores continuam a desempenhar seus papeis sem modificações particulares. A satisfação das necessidades passa a ser nada mais do que um reflexo, um efeito marginal. O que importa é a transformação
das pessoas em “coisas”, seguido de todo o resto. A natureza se torna uma “coisa”. Usada, ela é corrompida, assim como os instintos vitais dos humanos. Um abismo se abre entre a natureza e os homens. Isto deve ser preenchido,
e a expansão do mercado está a espreita. O espetáculo está expandindo ao ponto de devorar a si mesmo e mesmo suas contradições. Palco e auditório
entram na mesma dimensão, propondo a si mesmos para um nível mais elevado, mais distante, do mesmo espetáculo, e por ai adiante até ao infinito.
Quem escapa ao código das mercadorias não se torna objetivade e cai “fora” da área do espetáculo. Eles são apontados. Eles são rodeados por arame farpado. Se recusam a ser englobados ou uma forma alternativa de codificação, são criminalizados. Eles estão claramente loucos! É proibido recusar o ilusório num mundo que baseou a realidade na ilusão, o concreto no irreal. O capital administra o espetáculo de acordo com as leis da acumulação. Mas nada pode ser acumulado até ao infinito. Nem mesmo o capital. Um processo quantitativo em absoluto é uma ilusão, uma ilusão quantitativa, para ser preciso. Os patrões percebem isto perfeitamente. A exploração adota
diferentes formas e modelos ideológicos exatamente para assegurar esta acumulação em modos qualitativos, visto que não pode continuar no campo quantitativo indefinidamente. O fato de que todo o processo se torna paradoxal e ilusório não interessa muito ao capital, porque é precisamente
isso que segura as rédeas e faz as regras. Se precisar vender ilusão por realidade e isso gera dinheiro, então vamos prosseguir sem fazer demasiadas perguntas.  São os explorados que pagam a fatura. Por isso cabe a eles ver o
engano e preocuparem-se acerca de reconhecer a realidade. Para o capital as coisas estão bem como estão, mesmo estando elas construídas sobre o maior espetáculo de magia do mundo.
Os explorados quase sentem nostalgia por este logro. Cresceram acostumados as suas correntes e passaram a estar ligados a elas. De vez em quando têm fantasias sobre fascinantes levantamentos e banhos de sangue, depois se deixam  levar pelos discursos dos novos líderes políticos. O partido revolucionário estende a perspectiva ilusória do capital até horizontes que nunca poderia ter alcançado sozinho. A ilusão quantitativa se espalha. Os explorados aderem, contam a si próprios, tiram as suas conclusões. Slogans ferozes fazem os corações burgueses falhar uma batida. Quanto maior o número, mais os líderes se impôem arrogantemente e mais exigentes se tornam. Apresentam grandes programas para a conquista do poder. Este novo poder prepara-se para se espalhar sobre os restos do velho. A alma de Bonaparte sorri de satisfação. Como é óbvio, as mudanças profundas estão a ser programadas no código das ilusões. Mas tudo deve ser submetido ao símbolo da acumulação quantitativa. As exigências da revolução aumentam a medida que as forças militantes crescem. Do mesmo modo a taxa do lucro social que está tomando o lugar do lucro privado deve crescer. E então o capital entra numa nova, ilusória, fase espetacular. Velhas necessidades pressionam insistentemente sob novos rótulos. O deus da produtividade continua a comandar, sem rival.
Como é bom contar a nós mesmos. Nos faz sentir fortes. Os sindicatos contam a si próprios. Os partidos contam a si próprios. Os patrões contam a si próprios. Assim como nós. Como pétalas de rosas. E quando paramos de contar tentamos assegurar que as coisas ficam como estão. Se a mudança não puder ser evitada, iremos trazê-la sem perturbar ninguém. Os fantasmas são facilmente acordados. De tempos em tempos a política toma a dianteira. O capital muitas vezes inventa soluções geniais. Então a paz social nos atinge. O silêncio do cemitério. A ilusão se espalha de tal maneira que o espetáculo absorve quase todas as forças disponíveis. Nem um som. Então os defeitos e a monotonia da mise en scène (preparação do cenário). A cortina ergue-se em situações imprevistas. A máquina capitalista começa a vacilar. O envolvimento revolucionário é redescoberto. Aconteceu em ’68. Os olhos de todos quase saltaram as órbitas. Toda a gente extremamente feroz. Folhetos em todo o lado. Montanhas de folhetos e panfletos e jornais e livros. Velhas diferenças ideológicas alinhadas como soldados em lata. Até os anarquistas se redescobriram. E fizeramno historicamente, de acordo com as necessidades do momento. Toda a gente estava com o espírito bastante estúpido. os anarquistas também. Algumas pessoas acordaram do seu repouso espetacular e, procurando por espaço e ar para respirar, vendo anarquistas, disseram a si mesmas, “pelo menos estam aqui as pessoas com quem eu quero estar”. Cedo perceberam seu erro. As coisas não correram como deviam também nessa direção. Nisso, também, estupidez e espetáculo. E por isso elas fugiram. Fecharam-se em si mesmas. Despedaçaram-se. Aceitaram o jogo do capital. E se não aceitassem eram banidas, mesmo pelos anarquistas. A máquina de ’68 produziu os melhores servos civis do Estado novo-tecnológico-sem-burocracia.
Mas produziu também os seus anticorpos. O processo de ilusão quantitativa passou a ser evidente. Por um lado recebeu sangue fresco para construir uma nova visão do espetáculo mercantil, no outro houve uma falha. Tornou-se ruidosamente óbvio que o confronto ao nível da produção é ineficaz. Tomem as fábricas, e os campos, e as escolas, e os bairros e auto-gestionem-os, proclamavam os antigos anarquistas revolucionários. Destruiremos o poder em todas as suas formas, acrescentaram. Mas sem chegar às raízes do problema. Embora conscientes da sua gravidade e extensão, preferiam ignorá-lo, soprando as suas esperanças na espontaneidade criativa da revolução. Mas entretanto queriam manter o controle da produção. O que quer que aconteça, quaisquer que sejam as formas criativas que a revolução possa expressar, nós devemos tomar os meios de produção, insistiam eles. Caso contrário, o inimigo irá nos derrotar nesse nível. Portanto começaram a aceitar todos os tipos de compromisso. Acabaram criando outro, ainda mais macabro, espetáculo. E a ilusão espetacular tem as suas próprias regras. Qualquer pessoa que a queira dirigir tem que as suportar. Devem conhecer e aplicá-las, jurar por elas. A primeira é que a produção afeta tudo. Se tu não produzes não és humano, a revolução não é para ti. Por que devíamos nós tolerar parasitas? Devíamos ir para o trabalho em vez deles, talvez? Devíamos olhar para o seu modo de vida assim como para o nosso? Além disso, não iriam todas estas pessoas com idéias vagas e a reclamação de fazerem o que bem entenderem tornarem-se “objetivamente” úteis para a contra-revolução? Bem, nesse caso é melhor atacálas imediatamente. Nós sabemos quem são os nossos aliados, quem queremos ao nosso lado. Se queremos assustar, então vamos fazê-lo todos juntos; organizados e em perfeita ordem; e que ninguém ponha os pés em cima da mesa ou deixe as calças em baixo. Vamos organizar as nossas organizações específicas. Treinar militantes que sabem as técnicas de luta no lugar de produção. Os produtores farão a revolução, nós apenas estaremos lá para nos certificarmos que não fazem nenhum disparate. Não, está tudo errado. Como seremos capazes de evitar que cometam erros? No nível espetacular de organização há alguns capazes de fazer bem mais barulho do que nós. E eles têm de poupar fôlego. Luta no local de trabalho. Luta pela defesa de empregos. Luta pela produção. Quando sairemos nós deste círculo? Quando pararemos nós de morder as nossas caudas?

O homem desfigurado encontra sempre espelhos que o faz perfeito
de Sade

IV
Que loucura é o amor ao trabalho! Com grande habilidade cênica, o capital teve sucesso em fazer os explorados amar a exploração, o enforcado a corda e o escravo as suas correntes. Esta idealização do trabalho tem sido a morte da revolução até agora. O movimento dos explorados tem sido corrompido pela moralidade burguesa da produção, a qual não só lhe é estranha, mas também oposta. Não é por acaso que os sindicatos tenham sido o primeiro setor a ser corrompido, precisamente devido a sua proximidade com gestão do espetáculo da produção.  É tempo de opor a estética do não-trabalho a ética do trabalho. Devemos fazer frente a satisfação das necessidades espetaculares impostas pela sociedade de consumo com a satisfação das necessidades naturais da pessoa, vistas a luz da necessidade primária e essencial: a necessidade de comunismo. Deste modo a avaliação quantitativa das necessidades é deitada abaixo. A necessidade de comunismo transforma todas as outras necessidades e respectivas pressões no ser humano. A pobreza da pessoa, a consequência da exploração, tem sido vista como a base da redenção futura. O cristianismo e os movimentos evolucionários têm andado de mãos dadas através da história. Devemos sofrer para conquistar o paraíso ou para adquirir a consciência de classe que nos conduzirá a revolução. Sem a ética do trabalho, a noção marxista de “proletariado” não faria sentido. Mas a ética do trabalho é produto do mesmo racionalismo burguês que permitiu a burguesia conquistar poder.
O corporativismo vem a superfície através da armadilha do internacionalismo proletário. Toda a gente se bate dentro do seu setor. No máximo contatam os seus semelhantes em  outros países, através dos sindicatos. As monolíticas multinacionais são opostas por monolíticos sindicatos internacionais. Vamos lá fazer a revolução mas salvem a máquina, a ferramenta de trabalho, esse objeto mítico que reproduz a histórica virtude da burguesia, agora nas mãos do proletariado. O herdeiro da revolução está destinado a tornar-se o consumidor e ator principal do espetáculo capitalista de amanhã. Idealizada ao nível do conflito como beneficiária do seu resultado, a classe revolucionária desaparece na idealização da produção. Quando os explorados se vêm fechados numa classe, todos os elementos do espetacular já existem, tal como existem para a classe dos exploradores. A única maneira de os explorados escaparem do projeto globalizador do capital é através da recusa do trabalho, da produção e da economia política. Mas recusa do trabalho não deve ser confundida com “falta de trabalho”, numa sociedade que está baseada nesta, os marginalizados procuram trabalho. Não o encontram. São empurrados para guetos. São criminalizados. Então tudo isso se torna parte da gestão do espetáculo produtivo como um todo. Produtores e desempregados são igualmente indispensáveis ao capital. Mas o equilíbrio é delicado. As contradições explodem e produzem vários tipos de crise, e é neste contexto que a intervenção revolucionária toma lugar. Assim, a recusa do trabalho, a destruição do trabalho, é uma afirmação da necessidade de não-trabalho. A afirmação de que a pessoa consegue reproduzir e objetivar a si própria no não-trabalho através das várias solicitações que isto lhe estimula. A ideia de destruir o trabalho é absurda se for vista do ponto de vista da ética do trabalho. Mas como? Tantas pessoas a procura de trabalho, tantos desempregados, e vem me  falar de destruir o trabalho? O fantasma Luddita aparece e aterroriza todos os revolucionários-que-leram-todos-os-clássicos. O rígido modelo do ataque frontal contra as forças capitalistas não deve ser tocado. Todos os fracassos e sofrimento do passado são irrelevantes; assim, é a vergonha e a traição. Adiante companheiros, melhores dias virão, adiante outra vez! Seria suficiente mostrar que o conceito de “tempo livre”, uma suspensão temporária do trabalho, está enterrado hoje em dia, para assustar de volta os proletários para a atmosfera estagnante das organizações de classe (partidos, sindicatos e lambe-botas). O espetáculo oferecido pelas burocráticas organizações de descanso é deliberadamente desenhado para deprimir mesmo as mais férteis imaginações. Mas isto não é mais do que uma capa ideológica; um dos muitos instrumentos da guerra total que constituem o espectáculo num todo.
A necessidade de comunismo transforma tudo. Através da necessidade de comunismo a necessidade de não-trabalho move-se do aspecto negativo (oposição ao trabalho) para o positivo: a completa disponibilidade das pessoas
para si próprias, a possibilidade de se expressarem de modo absolutamente livre; soltando-se de todos os modelos, mesmo aqueles considerados fundamentais e indispensáveis como os da produção. Mas os revolucionários são pessoas obedientes e têm medo de romper com todos os modelos, incluindo o da revolução, que constitui um obstáculo a completa realização do que o conceito significa. Têm medo de se encontrarem sem um papel na vida. Alguma vez conheceste um revolucionário sem um projeto revolucionário? Um projeto que está  bem definido e claramente apresentado as massas? Que tipo de revolucionário seria aquele que exigisse a destruição do modelo, do embrulho, dos próprios princípios da revolução?  Ao atacar conceitos como quantificação, classe, projeto, modelo, papel histórico e outras coisas velhas deste tipo, correria o risco de não ter nada para fazer, de se ver obrigado a agir na realidade, modestamente, como toda as pessoas. Como milhões de outros que estão a construir a revolução dia a dia sem esperar por sinais de um prazo limite. E para fazer isto tu precisas de coragem. Com modelos rígidos e joguinhos quantitativos permaneces no domínio do irreal, do projeto ilusório da revolução, uma amplificação do espetáculo do capital. Ao abolir a ética da produção entra diretamente na realidade revolucionária. Até falar sobre estas coisas é difícil, pois não faz sentido mencioná-las nas páginas de uma dissertação. Reduzir estes problemas a uma análise final e completa seria errar o alvo. O melhor seria uma discussão informal capaz de fomentar a sutil magia do jogo de palavras. É uma verdadeira contradição falar de prazer seriamente.

As noites de verão são árduas. Dorme-se mal em quartos pequenos.
É a Noite da Guilhotina.
Zo d’Axa

V
Os explorados também encontram tempo para se divertir. Mas o seu divertimento não é prazer. É um ritual macabro. Uma morte lenta. Uma suspensão do trabalho com o objetivo de aliviar a pressão da violência acumulada durante a atividade de produção. No mundo ilusório das mercadorias, o divertimento é também uma ilusão. Imaginamos que estamos brincando, quando o que estamos realmente fazendo é repetir monotonamente os papéis que nos foram atribuídos pelo capital. Quando ficamos conscientes do processo de exploração, a primeira coisa que sentimos é um desejo de vingança, a última é prazer. A libertação é vista como a reposição de um equilíbrio que tinha sido abalado pela perversidade do capitalismo, não como a vinda de um mundo de divertimento que vem ocupar o lugar do mundo de trabalho. Esta é a primeira fase do ataque aos chefes. A fase de consciência imediata. O que nos fere são as correntes, o chicote, os muros das prisões, as barreiras sexuais e raciais. Tudo deve vir abaixo. Assim, nos armamos e ferimos o adversário, para fazer pagar pela sua responsabilidade. Durante a noite da guilhotina as bases para um novo espetáculo são colocadas. O capital recupera força: primeiro as cabeças dos chefes caem, depois as dos revolucionários. É impossível fazer a revolução apenas com a guilhotina. A vingança é a antecâmara do poder. Qualquer pessoa que  queira se vingar requer um líder. Um líder que os conduza a vitória e reponha a justiça ferida. E quem quer que seja que grite por vingança quer ficar na posse daquilo que lhe foi retirado. Direitos a abstração suprema, a apropriação dos excedentes. O mundo do futuro deve ser um em que toda as pessoas trabalhem. Ótimo! Assim teremos imposto a escravidão a todas as pessoas, com a exceção daqueles que a fazem funcionar e que, precisamente por isso, se tornam os novos patrões. Aconteça o que acontecer, os chefes devem “pagar” pelos seus erros. Muito bem! “Carregaremos” a ética Cristã do pecado, julgamento e correção para a revolução. Assim como os conceitos de “dívida” e “pagamento”, claramente de origens mercantis. Tudo isso é parte do espetáculo. Mesmo quando ele não é gerido pelo poder diretamente, pode facilmente ser monopolizado. A inversão de papéis é uma das técnicas de teatro. Talvez seja necessário atacar usando as armas da vingança e castigo num dado momento na luta de classes. O movimento pode não possuir quaisquer outras. Deste modo esse será o momento da guilhotina. Mas os revolucionários  devem estar conscientes das limitações de tais armas. Não se devem iludir a si mesmos nem a outros. Dentro do quadro paranóico de uma máquina racionalizadora como o capitalismo, o conceito da revolução da vingança  pode até tornar-se parte do espetáculo, visto que ele se adapta constantemente. O movimento de produção parece surgir graças a bênção da ciência econômica, mas na realidade é baseado na antropologia ilusória da separação de tarefas. Não há prazer no trabalho, mesmo que ele seja autogestionado. A revolução não pode ser reduzida a uma simples reorganização do trabalho. Não somente a isso. Não há prazer no sacrifício, na morte e na vingança. Tal como não há prazer em nos contarmos. A aritmética é a negação do prazer.
Qualquer pessoa que deseje viver não produz morte. Uma aceitação provisória da guilhotina conduz a sua institucionalização. Mas ao mesmo tempo, qualquer pessoa que ame a vida não abraça o seu explorador. Isso significaria que é contra a vida em benefício do sacrifício, da auto-punição, do trabalho e da morte. No cemitério do trabalho, séculos de exploração acumularam uma grande montanha de vingança. Os líderes da revolução sentam-se no topo desta montanha, impassivelmente. Estudam a melhor maneira de obter lucro dela. Assim, a espora da vingança deve ser direcionada contra os interesses da nova casta no poder. Símbolos e bandeiras. Slogans e análises complexas. O aparato ideológico faz tudo o que é necessário.
É a ética do trabalho que torna isto possível. Alguém que se delicie no trabalho e queira tomar os meios de produção não quer que as coisas vão em frente cegamente. Eles sabem por experiência que os patrões tiveram uma forte organização do seu lado de modo a fazer a exploração funcionar. Eles pensam que uma semelhante organização forte e perfeita fará a libertação possível. Faz tudo ao teu alcance; a produtividade deve ser salva a todo o custo. Que embuste. A ética do trabalho é a ética Cristã do sacrifício, a ética dos patrões graças a qual os massacres da história se sucederam uns aos outros com
preocupante regularidade. Esta gente não consegue compreender que seria possível  não produzir excedentes, e que uma pessoa se podia também recusar a fazê-lo. Que é possível defender a vontade de alguém para não produzir, e assim lutando contra ambas as estruturas econômica e ideológica dos patrões,  que penetram a totalidade do pensamento ocidental. É essencial perceber que a ética do trabalho é a base do projeto revolucionário quantitativo. Argumentos contra o trabalho não fariam sentido se fossem feitos por organizações revolucionárias com a sua lógica de crescimento quantitativo. A substituição da ética do trabalho pela estética do prazer não significaria um fim da vida, como tantos preocupados companheiros entendem. A pergunta “o que vamos comer?” alguem poderia  simplesmente responder “o que produzirmos”.  Só que a produção não mais seria a dimensão
na qual o humano se determina, pois isso aconteceria na esfera do divertimento e do prazer. Uma pessoa poderia produzir como algo separado da natureza, e então juntarmo-nos a ela como algo que é a natureza em si mesmo. Portanto, seria possível parar a produção a qualquer momento, quando já houvesse o suficiente. Apenas o prazer será incontrolável. Uma força desconhecida das larvas civilizadas que povoam a nossa era. Uma força que irá multiplicar o impulso criativo da revolução um milhar de vezes. A riqueza social do mundo comunista não é medida numa acumulação de excedentes, mesmo que passe a ser gerida por uma minoria que se auto-denomina o partido do proletariado. Esta situação reproduz o poder e nega a própria essência de anarquia. A riqueza social comunista advém do potencial de vida que aparece após a revolução. A acumulação qualitativa, não quantitativa, deve substituir a acumulação capitalista. A revolução da vida toma o lugar da revolução meramente econômica, o potencial produtivo toma o lugar da produção cristalizada, o prazer toma o lugar do espetáculo. A recusa do mercado espetacular de ilusões capitalistas criará outro tipo de troca. De uma troca quantitativa fictícia a uma realmente qualitativa. A circulação de bens não se irá basear em objetos nem na sua ilusionista reificação, mas no significado que os objetos têm para a vida. E este deve ser um significado de vida, não de morte. Assim, estes objetos serão limitados ao preciso momento em que são trocados, e a sua significação irá variar de acordo com as situações em que isto toma lugar. O mesmo objeto poderia ter “valores” profundamente diferentes. Será personificado. Nada a ver com a produção como a conhecemos hoje, na dimensão do capital. A própria troca terá um significado diferente quando for vista através da recusa de produção ilimitada. O trabalho libertado não existe. O trabalho integrado (manual-intelectual) não existe. O que existe é a divisão do trabalho e a venda da força de trabalho, i.e., o mundo capitalista da produção. A revolução é a negação do trabalho e a afirmação do prazer. Qualquer tentativa de imposição da idéia de trabalho, de “trabalho justo”, de trabalho sem exploração, de trabalho “auto-gestionado”, onde é suposto os explorados reapropriarem-se totalmente do processo produtivo sem exploração, é uma mistificação. O conceito da auto-gestão da produção é válido apenas como forma de luta contra o capitalismo, na verdade não pode ser separado da ideia de auto-gestão da luta. Se a luta for extinta, a auto-gestão torna-se nada mais do que a autogestão da exploração pessoal. Se a luta for vitoriosa, a autogestão da produção torna-se supérflua, pois após a revolução a organização da produção é supérflua e contrarevolucionária.

Enquanto fores tu próprio a fazer o lançamento, tudo é habilidade e fácil de ganhar; só se de repente te tornas o que apanha a bola que o eterna colega arremessa, para o teu centro, com toda a sua força, num
daqueles arcos de grandiosos e divinos construtores de pontes: apenas aí a capacidade de ganhar força é não tua, mas de um mundo.
Rilke

VI
Todos acreditamos que já experimentamos o prazer. Cada um de nós acredita que já fomos felizes pelo menos uma  ez nas nossas vidas. Só que esta experiência de prazer foi sempre passiva. Nos Acontece de divertir a nós mesmo. Não conseguimos “desejar” o prazer, da mesma maneira que não podemos obrigar o prazer a aparecer, quando queremos que o faça. Toda esta separação entre nós e o prazer depende de estarmos “separados” de nós mesmas, divididas em dois pelo processo de exploração. Trabalhamos o ano inteiro para termos o “prazer” das férias. Quando estas chegam sentimo-nos “obrigados” a “desfrutar” do fato de estarmos de férias. Uma forma de tortura como outra qualquer. O mesmo acontece para os Domingos. Um dia terrível. A rarefação da ilusão de tempo livre demonstra o vazio do espetáculo mercantil em que vivemos. O mesmo olhar vidrado e sem vida fita o copo meio vazio, a tela de televisão, o jogo de futebol, a dose de heroína, a tela de cinema, as filas de trânsito, luzes de neon, as casas pré-fabricadas que completaram a matança da paisagem. Procurar “prazer” nas profundezas de qualquer uma das representações do espetáculo capitalista seria pura loucura. Mas isso é precisamente o que o capital quer. A experiência de tempo livre programada pelos nossos exploradores é mortal. Te faz querer ir trabalhar. A vida aparente de uma pessoa acaba por preferir a morte certa. Nenhum verdadeiro prazer chega até nós a partir do mecanismo racional de exploração capitalista. O prazer não tem regras fixas que o cataloguem. Mesmo assim, devemos ser capazes de desejar prazer. De outro modo estaríamos perdidos. A procura do prazer é, portanto, um ato de vontade, uma recusa firme das condições fixas do capital e dos seus valores. A primeira destas recusas é a do trabalho como um valor. A procura do prazer pode chegar apenas através da procura do divertimento. Assim, o divertimento significa algo diferente do que estamos habituados a considerá-lo ser na dimensão do capital. Como a tranquila ociosidade, o divertimento que se opõe as responsabilidades da vida é uma imagem artificial, distorcida, do que ele realmente é. No atual estado do conflito e das constrições relativas na luta contra o capital, o divertimento não é um “passatempo”, mas uma arma. Por um golpe de ironia, os papéis estão invertidos. Se a vida é algo sério, a morte é uma ilusão, no sentido de que,
enquanto estamos vivos, a morte não existe. Agora, o reino da morte, ou seja, o reino do capital, que nega a nossa própria existência como seres humanos e nos reduz a “coisas”, parece bastante sério, metódico e disciplinado. Mas o seu apogeu possessivo, o seu rigor ético, a sua obsessão com o “fazer”, todos escondem uma grande ilusão: o vazio total do espetáculo mercantil, a inutilidade da acumulação indefinida e o absurdo da exploração. Assim, a grande seriedade do mundo do trabalho e da produtividade esconde uma completa falta de seriedade. Por outro lado, a recusa deste mundo estúpido, a perseguição do prazer, dos sonhos, da utopia, na sua declarada “falta de seriedade”, oculta a mais séria coisa na vida: a recusa da morte. Na confrontação física com o capital, o divertimento toma diferentes formas, mesmo deste lado da cerca. Muitas coisas podem ser feitas “divertidamente”, ainda que a maioria das coisas que fazemos, fazemo-as muito “seriamente”,
usando a máscara da morte que pedimos emprestada ao capital. O divertimento é caracterizado por um impulso vital que é sempre novo, que está sempre em movimento. Agindo como se estivéssemos a brincar, carregamos a nossa ação com este impulso. Nos libertamos da morte. O divertimento faz nos sentir vivos. Nos da a excitação da vida. No outro modelo de atuação fazemos tudo como se fosse um dever, como se “tivéssemos” que fazer. É na sempre nova excitação do divertimento, totalmente o oposto a alienação e loucura do capital, que somos capazes de identificar o prazer. Aqui reside a possibilidade de quebrar com o velho mundo e de nos identificarmos com novos objetivos e outros valores e necessidades. Mesmo que o prazer não possa ser considerado o objetivo do ser humano, ele é, indubitavelmente, a dimensão privilegiada que torna diferente o confronto com o capital, quando perseguido deliberadamente.

A vida é tão aborrecida que não há nada para fazer, a não ser gastar todo o nosso salário na última saia ou camisa. Irmãos e irmãs, quais são os vossos verdadeiros desejos? Sentarem-se no bar, com olhar distante, vazios, aborrecidos, beber um café sem sabor? Ou talvez  EXPLODIR OU ATEAR FOGO EM TUDO ?
The Angry Brigade

VII
O grande espetáculo do capital nos engoliu a todos até ao pescoço. Atores e espectadores em alternancia. Alternamos os papéis, quer seja pasmados de boca aberta  olhando para os outros ou fazendo os outros ficarem pasmados ao olhar para nós. Desmontamos do coche de vidro, mesmo sabendo que é apenas uma abóbora. O feitiço da fada madrinha iludiu a nossa consciência crítica. Agora temos de jogar o jogo. Até a meia-noite, pelo menos. A pobreza e a fome continuam a ser a forças motrizes da revolução. Mas o capital está expandindo o espetáculo. Quer novos atores em palco. O maior espetáculo
do mundo continuará a nos surpreender. Cada vez mais complexo, melhor e mais bem organizado. Novos palhaços se preparam para subir a tribuna. Novas espécies de bestas selvagens serão domesticadas. Os defensores da quantidade, amantes da aritmética, serão os primeiros e ficarão cegos pelas luzes da ribalta, arrastando a necessidade das massas e as ideologias da salvação atrás deles. Mas uma coisa de que não conseguirão se livrar é da sua seriedade. O maior perigo que enfrentarão será uma gargalhada. No espetáculo do capital, o prazer é fatal. Tudo é sombrio e fúnebre, tudo é sério e ordeiro, tudo é racional e programado, precisamente porque tudo é falso e ilusório. Para além das crises, para além de outros problemas do subdesenvolvimento, para além da pobreza e da fome, a última batalha para  qual o capital terá de estar preparado, aquela decisiva, é a batalha contra o tédio. O movimento revolucionário terá também de lutar as  suas batalhas. Não apenas as tradicionais contra o capital, mas algumas novas, contra si mesmo. O tédio o está atacando por dentro, causando a sua deterioração, fazendo-o asfixiante, inabitável. Vamos deixar aqueles que gostam do espetáculo do capitalismo sozinhos. Os que estão bastante satisfeitos por representar as suas partes até ao fim. Estas pessoas pensam que as reformas podem realmente mudar as coisas. Mas isto é mais uma capa ideológica do que outra coisa. Eles sabem demasiado bem que mudar bocados é uma das regras do sistema. É útil ao capital ter as coisas arranjadas um pouco de cada vez. Assim, existe o movimento revolucionário, onde não faltam aqueles que atacam o poder do capital verbalmente. Estas pessoas geram uma enorme confusão. Aparecem com grandes declarações mas já não impressionam ninguém, muito menos o capital, que, com astúcia, os usa para a parte mais delicada do seu espetáculo. Quando precisa de um solista, coloca um destes intérpretes em palco. O resultado é lastimável. A verdade é que o mecanismo
espetacular das mercadorias deve ser quebrado pela  entrada, o domínio do capital, nos seus centros de comando, direito ao próprio núcleo de produção. Imagina que maravilhosa explosão de prazer, que grandioso salto para a frente, que extraordinário fim incerto. Só que é difícil entrar nos mecanismos do capital alegremente, com os símbolos da vida. A luta armada é muitas vezes um símbolo de morte. Não porque traz a morte aos chefes e aos seus servos, mas porque quer impor as estruturas do domínio da própria morte. Concebida de outro modo, ela seria realmente prazer em ação, capaz de quebrar as condições estruturais impostas pelo espetáculo mercantil, tais como o partido militar, a conquista do poder, a vanguarda. Este é a outra inimiga do movimento revolucionário. A incompreensão. A recusa de ver as novas condições do conflito. A insistência em impor modelos do passado que se tornaram hoje parte do espetáculo mercantil. A ignorância da nova realidade revolucionária está conduzindo a uma falta de consciência teórica e estratégica da capacidade revolucionária do próprio movimento. E não basta
dizer que há inimigos tão a mão que é indispensável intervir imediatamente, sem olhar a questões de natureza teórica. Tudo isto esconde a incapacidade de encarar a nova realidade do movimento e de evitar os erros do passado, que têm sérias consequências no presente. E esta recusa fomenta todos os tipos de ilusões políticas racionalistas. Categorias como vingança, líderes, partidos, a vanguarda, crescimento quantitativo, apenas significam algo na dimensão desta sociedade, e tal significado favorece a perpetuação  do poder. Quando olha para as coisas de um ponto de vista revolucionário, isto é, a completa e definitiva eliminação de todo o poder, estas categorias perdem o sentido. Ao nos movermos para parte alguma da utopia, contrariando a ética do trabalho, transformando-a no aqui e agora, no prazer em  realização, nos encontramos numa estrutura que está longe das formas históricas de organização. Esta estrutura muda constantemente e, portanto, escapa a cristalização. É caracterizada pela auto-organização da luta contra o trabalho. Não a tomada dos meios de produção, mas a recusa da produção, através de formas organizacionais que estão constantemente a mudar. O mesmo está acontecendo com os desempregados e os trabalhadores casuais. Estimuladas pelo tédio e pela alienação, estruturas emergem na base da auto-organização.
A introdução de objetivos programados e  impostos por uma organização exterior iria matar o movimento e consigná-lo ao espetáculo mercantil. A maior parte de nós está ligada a esta idéia de organização revolucionária. Mesmo os anarquistas, que recusam a organização autoritária, não a desprezam. Nesta base, todos aceitamos a idéia de que a contraditória realidade do capital pode ser atacada com meios semelhantes. Fazemos isto
porque estamos convencidos que estes meios são legítimos, surgindo do mesmo campo de luta que o capital. Recusamos admitir que nem toda a gente vê as coisas da mesma maneira que nós. A nossa teoria é idêntica a prática
e estratégia das nossas organizações. As diferenças entre os autoritários e nós são muitas; mas todas elas caem perante uma fé comum na organização
histórica. A anarquia será alcançada através do trabalho destas organizações (diferenças substanciais apenas aparecem nos métodos de abordagem). Mas esta fé indica algo muito importante: a reivindicação da nossa cultura totalmente racionalista de explicar a realidade em termos progressistas.
Esta cultura baseia-se na ideia de que a história é irreversível, assim como na capacidade analítica da ciência. Tudo isto nos faz ver o presente como a altura em que todos os esforços do passado encontram o ponto culminante da luta contra os poderes das trevas (a exploração capitalista). Consequentemente, estamos convencidos que somos mais avançados que os nossos antecessores, capazes de elaborar e colocar em prática teorias e estratégias organizacionais que são a soma de todas as experiências do passado. Todos os que rejeitam esta interpretação encontram-se automaticamente do outro lado da realidade, que é, por definição, história, progresso, e ciência. Quem quer que recuse tal realidade é anti-histórico, anti-progressista e anticientífico. Condenado sem recurso. Fortalecidos por esta armadura ideológica, vamos para as ruas. Aqui nos lançamos na realidade de uma luta que está estruturada de maneira bem diferente, por estímulos que não entram no quadro da nossa análise. Numa bela manhã, durante uma manifestação pacífica, a polícia começa a disparar. A estrutura reage, companheiros disparam também, políciais caem. Maldição! Era uma manifestação pacífica. Para que tivesse degenerado em ações individuais de guerrilha tem que ter havido uma provocação. Nada pode ir além do perfeito quadro da nossa organização ideológica pois ela não é apenas uma “parte” da realidade, ela é “toda” a realidade. Qualquer coisa para além dela é loucura e provocação. Supermercados são destruídos, lojas, armazéns
de comida e de armas são pilhados, carros de luxo são queimados. É um ataque ao espetáculo mercantil na sua mais notável forma. As novas estruturas estão se movendo nessa direção. Tomam forma de repente, apenas com a mínima orientação estratégica necessária. Sem frescuras, sem longas premissas analíticas, sem complexas teorias de suporte. Elas atacam. Companheiros identificam-se com estas estruturas. Rejeitam as organizações que dão poder, equilíbrio, espera, morte. A sua ação é uma crítica das suicidas
posições de esperar-para-ver destas organizações. Maldição! Deve ter havido uma provocação. Há uma fuga dos tradicionais modelos políticos que se
torna uma crítica do próprio movimento. A irônia tornase uma arma. Não encerrada num estudo de um escritor, mas em massa, nas ruas. Não apenas os servos dos patrões, mas também os líderes revolucionários se encontram em dificuldades, como resultado disso. A mentalidade do desnecessário chefe e grupo de liderança é também posta em crise. Maldição! A única crítica legítima é aquela contra os patrões, e deve concordar com as regras ditadas pela tradição histórica da luta de classes. Quem quer que se desencaminhe do seminário é um provocador. As pessoas estão fartas de reuniões, das marchas clássicas, sem sentido, de discussões teóricas que metem os cabelos em pé, de distinções sem fim, da monotonia e pobreza de certas análises políticas. Elas preferem fazer amor, fumar, ouvir música, passear, dormir, rir, brincar,
matar políciais, estropiar jornalistas, matar juízes, explodir quartéis. Maldição! A luta só é legítima quando é compreensível para os líderes da revolução. Senão, havendo o risco de que a situação possa fugir ao seu controle, deve ter havido uma provocação. Depressa, companheiro, alveja a polícia, o juiz, o patrão. Agora; antes que uma nova polícia te impeça. Apressa-te a dizer Não, antes que a nova repressão te convença que não vale a pena dizer não, que é loucura, e que devia aceitar a hospitalidade do asilo mental. Apressa-te a atacar o capital, antes que uma nova ideologia o torne sagrado para ti. Apressa-te a recusar o trabalho, antes que algum novo sofista te diga novamente que “o trabalho liberta”. Apressa-te a se divertir. Apressa-te a te armar.

Não haverá revolução até que os Cossacos desçam a terra.
Coeurderoy

VIII
O divertimento é também enigmático e contraditório na lógica do capital, que o usa como parte do espetáculo mercantil. Adquire uma ambiguidade que não possui em si mesmo. Esta ambiguidade advém da estrutura ilusória da produção capitalista. Deste modo, o jogo torna-se simplesmente uma suspensão da produção, um parêntesis de “paz” no quotidiano. Assim, o divertimento torna-se programado e usado em cena. Quando está fora do domínio do capital, o divertimento é harmoniosamente estruturado pelo seu próprio impulso criativo; não está ligado a esta ou aquela performance requerida pelas forças do mundo da produção, desenvolve-se de forma autonoma. É apenas nesta realidade que o divertimento é alegre, que oferece prazer. Não “suspende” a infelicidade da dilaceração causada pela exploração, mas realiza-o até ao fim, fazendo-o tornar-se um participante na realidade da
vida. Deste modo, ele opõe-se as artimanhas colocadas em ato pela realidade da morte – mesmo através do divertimento – para tornar a obscuridade menos obscura.
Os destruidores da realidade da morte estão lutando contra o reinado mítico da ilusão capitalista, um reinado que embora aspire a eternidade, rebola na poeira das contingências. O prazer emerge do divertimento da ação destrutiva,
do reconhecimento da profunda tragédia que isto implica e de uma consciência da força de entusiasmo, capaz de matar as conspirações da morte. Não é uma questão de opor o horror com horror, a tragédia com tragédia, a morte com
morte. É uma confrontação entre prazer e horror, prazer e tragédia, prazer e morte. Para matar um polícial não é necessário vestir as vestes do juiz, apressadamente purificadas do sangue de condenações prévias. Tribunais e condenações são sempre partes do espetáculo do capital, mesmo quando são
revolucionários que as desempenham. Quando um polícial é morto, a sua responsabilidade não é medida nas escalas, o confronto não se torna uma questão de aritmética. Não se está programando uma visão da relação entre movimento revolucionário e exploradores. Se está respondendo, no nível imediato, a uma necessidade que se tornou estruturada no seio do movimento revolucionário, uma necessidade que nenhuma análise e justificação deste mundo teria tido sucesso em impor por si só. Esta necessidade é o ataque ao inimigo, aos exploradores e aos seus servos. Amadurece lentamente dentro das estruturas do movimento. Apenas quando sai para fora é que o movimento passa da fase defensiva para o ataque. Análise e justificação moral estão rio acima, na fonte, e não rio abaixo, aos pés daqueles que saem as ruas, posicionadas para faze-los tropeçar. Análise e justificação moral existem nos séculos de violência sistemática que o capital tem exercido nos explorados. Mas não saltam necessariamente a vista, numa forma completa e pronta para usar. Isso seria uma nova racionalização de intenções, o nosso sonho de impor um modelo na realidade que não lhe pertence. Vamos fazer estes Cossacos virem abaixo. Nós não apoiamos o papel da reação, isso não é para nós. Nos recusamos  a aceitar o convite ambíguo do capital. Em vez de
atirar nos nossos companheiros ou uns nos outros, é sempre melhor alvejar políciais. Há alturas na história em que a ciência existe na consciência daqueles que estão em luta. Em tais alturas não há necessidade de intérpretes
da verdade. Ela emerge das coisas como elas são. É a realidade da luta que produz teoria. O nascimento do mercado de bens marcou a formação do capital, a passagem de formas feudais de produção para a capitalista. Com a entrada da produção na sua fase espetacular, a forma de mercadoria estendeu-se a tudo que existe: amor, ciência, sentimentos, consciência, etc. O espetáculo alargou-se. A segunda fase não constitui, como defendem os marxistas, uma corrupção da primeira. Ela é uma fase completamente nova. O capital devora tudo, até a revolução. Se esta não rompe com o modelo da produção, se meramente reclama impor formas alternativas, o capitalismo irá engoli-la dentro do espetáculo mercantil. Apenas a luta não pode ser engolida. Algumas das suas formas, cristalizando-se em entidades organizacionais específicas, podem acabar sendo arrastadas para o espetáculo. Mas quando elas rompem e saem da significância profunda que o capital dá a produção, isso torna-se extremamente difícil. Na segunda fase, questões de aritmética e vingança não fazem sentido. Se forem mencionadas, tomam uma significância
metafórica. O jogo ilusório do capital (o espetáculo mercantil) deve ser substituído pelo jogo verdadeiro do ataque armado contra ele, pela destruição do irreal e do espetáculo.

Faça você mesmo
Manual “Bricoleur”

IX
É fácil. Pode fazer você mesmo. Sozinho ou com alguns companheiros de confiança. Não são necessários meios complicados. Nem mesmo grande conhecimento técnico. O capital é vulnerável. Tudo o que precisa é estar decidido. Uma data de conversa nos tornou obtusos. Não é uma questão de medo. Nós não estamos com medo, apenas estupidamente cheios de ideias pré-fabricadas, das quais não nos conseguimos libertar. Alguém que esteja disposto a levar a cabo a sua ação não é uma pessoa corajosa. É simplesmente alguém que clareou as suas ideias, que percebeu que não faz sentido fazer tamanho esforço para representar a parte que lhe foi incumbida pelo capital nesta performance. Completamente consciente, essa pessoa ataca com  uma calma determinação. E, ao fazê-lo, realiza-se como ser humano. Mesmo que crie destruição e terror aos patrões, no seu coração e nos corações dos explorados existe prazer e calma. As organizações revolucionárias têm dificuldade em perceber isto. Elas impõem um modelo que reproduz a realidade da produção. O destino quantitativo desta impede-as de obter qualquer movimento qualitativo para o nível da dimensão estética do prazer. Estas organizações vêem também o ataque armado de um ponto de vista puramente quantitativo. Os objetivos são decididos em termos de um confronto frontal. Desse modo, o capital é capaz de controlar qualquer emergência. Pode até dar-se ao luxo de aceitar as contradições, de se focar em objetivos espetaculares, de explorar os efeitos negativos nos produtores de forma a alargar o espetáculo. O capital aceita o confronto no campo quantitativo, pois é aí que ele conhece todas as respostas. Tem um monopólio das regras e produz ele mesmo as soluções. Pelo contrário, o prazer do ato revolucionário é contagiante. Espalha-se como uma mancha de óleo. O divertimento ganha significado quando atua na realidade. Mas este significado não está cristalizado num modelo que o governa desde cima. Ele divide-se em milhares de significados, todos produtivos e instáveis. As ligações internas do divertimento descobrem-se a si mesmas na ação de ataque. Mas o sentido global mantêm-se, o significado que o divertimento tem para aqueles que são excluídos e que querem apropriar-se dele.
Aqueles que decidem, primeiro que tudo, se divertir, e aqueles que “observam” as consequências libertadoras do jogo, são essenciais ao próprio jogo. A comunidade do prazer está estruturada desta forma. É uma forma espontânea de entrar em contato, fundamental para a realização do mais profundo significado do divertimento. O divertimento é um ato comunitário. Raramente se apresenta como um fato isolado. Se o faz, muitas vezes contém os elementos negativos da repressão psicológica; não é uma aceitação positiva do divertimento como momento de luta criativo. É o sentido comunitário do divertimento que evita a arbitrariedade na escolha da significância dada ao próprio jogo. Na ausência de uma relação comunitária, a pessoa poderia impor as suas próprias regras e significados, que seriam incompreensíveis para todas as outras, simplesmente tornando o divertimento numa suspensão temporária das consequências negativas dos seus problemas individuais (os problemas do trabalho, da alienação, da exploração).
No acordo comunitário, o divertimento é enriquecido por um fluxo de ações recíprocas. A criatividade é maior quando advém de imaginações libertadas reciprocamente verificadas. Cada nova invenção, cada nova possibilidade, pode ser vivida coletivamente sem modelos pré-constituídos, e ter uma influência vital, mesmo sendo apenas um momento criativo, mesmo que se depare com mil dificuldades durante a sua realização. Uma tradicional organização revolucionária acaba por impor os seus técnicos. Tende inevitavelmente para a tecnocracia. A grande importância dada ao aspecto mecânico da ação a condena ao longo deste caminho. Uma estrutura revolucionária que procura o momento de prazer na ação levada a cabo com o objetivo de destruir o poder, considera as ferramentas usadas para alcançar esta destruição apenas isso, meios. Aqueles que usam estas ferramentas não devem tornar-se escravos delas. Assim como aqueles que não as sabem usar não se devem tornar escravos dos que o sabem. A ditadura da ferramenta é o pior tipo de ditadura. As armas mais importantes dos revolucionários são a
sua determinação, a sua consciência, a sua decisão de agir, a sua individualidade. As armas por si só são apenas ferramentas  e, como tal, devem ser constantemente submetidas a avaliação crítica. É necessário desenvolver uma crítica das armas. Demasiadas vezes vimos a santificação da arma semi-automática e da eficiência militar. A luta armada não envolve armas apenas. Estas por si só não conseguem representar a dimensão revolucionária. É perigoso reduzir uma complexa realidade a uma só coisa. Na verdade, o divertimento envolve este risco. Ele pode fazer da experiência de viver nada mais do que um brinquedo, tornando-a em algo mágico e absoluto. Não é por acaso que a metralhadora aparece no simbolismo de muitas organizações revolucionárias militantes. Devemos ir além disto, de forma a perceber o prazer como a profunda significância da luta revolucionária, escapando das ilusões e armadilhas da parte do espetáculo mercantil, através de objetos míticos e mistificados. O capital faz o seu derradeiro esforço quando confrontado com a luta armada. Empenha-se na sua última barreira. Precisa do apoio da opinião pública, de modo a atuar num campo onde não está muito seguro de si mesmo. E, por isso, desencadeia uma guerra psicológica, usando as mais refinadas armas de propaganda moderna. Basicamente, o modo como o capital está fisicamente organizado no presente faz dele vulnerável a qualquer estrutura revolucionária que seja capaz de decidir os seus próprios tempos e meios de ataque. Ele está bem consciente desta fraqueza e está tomando medidas para a compensar. A polícia não é suficiente. Nem mesmo o exército. Isto requer uma vigilância constante por parte das próprias pessoas.
Mesmo da mais humilde parte do proletariado. Assim, para fazer isto, ele tem de dividir a frente de classe. Ele tem de espalhar o mito do perigo das organizações armadas por entre os pobres; e, ao mesmo tempo, o mito da santidade do estado, da moralidade, da lei e por aí fora. Indiretamente, o capital empurra estas organizações e os seus militantes para assumir papéis específicos. Uma vez neste “papel”, o divertimento deixa de ter qualquer significado. Tudo se torna “sério”, logo, ilusório; o divertimento  entra no domínio do espetacular e transforma-se numa mercadoria. O DIVERTIMENTO torna-se “máscara”. O indivíduo torna-se anônimo, vive o seu papel, não mais
capaz de distinguir entre aparência e realidade. Afim de nos libertarmos do círculo mágico das mercadorias teatrais, nós temos de recusar todos os papéis, incluindo o de revolucionário “profissional”. A luta armada não deve deixar ser ela mesma algo profissional, especificamente, deve impedir a divisão de tarefas que o aspecto externo da produção capitalista lhe quer impor.
“Faça você mesmo”. Não quebre o aspecto global do
divertimento reduzindo-o a papéis. Defenda o teu direito de gozar a vida. Obstrua o projeto de morte do capital. Este ultimo pode apenas entrar no mundo da criatividade e do divertimento transformando quem está jogando num “jogador”, o criador vivo numa pessoa morta, que se engana a si mesma ao acreditar que está viva. Não haveria mais sentido em falar sobre divertimento se o “mundo do divertimento” se tornasse centralizado. Devemos
prever esta possibilidade de o capital tomar novamente a proposta revolucionária quando lançamos o nosso argumento de “prazer armado”. E uma maneira em que isto poderia acontecer seria através da gestão do mundo do divertimento desde o exterior. Através do estabelecer de papéis dos jogadores e da mitologia do brinquedo. Ao quebrar os laços da centralização (do partido armado), obtém-se o resultado de confundir as idéias do capital,
sintonizadas como estão para o código da produtividade espetacular do mercado quantitativo. Não é nada. Algo sem objetivo preciso, desprovido de realidade. E é assim porque a essência, os objetivos e a realidade do capital são ilusórios, enquanto a essência, os objetivos e a realidade da revolução são concretos. O código da necessidade de comunismo toma o lugar do código da necessidade de produzir. Na luz desta necessidade, na comunidade do divertimento, as decisões da pessoa tornam-se significantes. A irreal personagem ilusória dos modelos da morte do passado é posta a descoberto. A destruição dos chefes significa a destruição das mercadorias, e a destruição das mercadorias significa a destruição dos chefes.

O mocho levanta voo
Provérbio ateniense

X

“O mocho levanta voo”. Que as ações que começam mal possam chegar a bom desfecho. Que a revolução, começada por revolucionários há tanto tempo, possa ser realizada, ainda que haja um residual desejo por paz social. O capital dará a última palavra aos das batas brancas. As prisões não durarão muito tempo. As fortalezas de um passado que sobrevive apenas nas fantasias de um ou outro velho reacionário exaltado, desaparecerão juntamente com a ideologia baseada na ortopedia social. Não mais existirão condenados. A criminalização que o capital cria será racionalizada, será trabalhada em asilos.
Quando a totalidade da realidade é espetacular, recusar o espetáculo significa estar fora da realidade. Alguém que recuse o código das mercadorias é louco. A recusa de se curvar perante o deus mercantil resultará num internamento num asilo mental. Lá o tratamento será radical. Já sem torturas ao estilo da inquisição, ou sangue nas paredes; tais coisas transtornam a opinião pública. Fazem os sempre corretos intervir, dão origem a justificações e a fazer emendas e perturbam a harmonia do espetáculo. A completa aniquilação da personalidade, considerada a única cura radical para mentes doentes, não transtorna ninguém. Desde que o ser humano na rua sinta que está rodeado pela imperturbável atmosfera do espetáculo capitalista, irá se sentir a salvo das portas do asilo, sempre a se fecharem com força na sua cara. O mundo da loucura lhe parecerá estar noutro lugar qualquer, mesmo que haja sempre um asilo disponível ao lado de cada fábrica, em frente a cada escola, por detrás
de cada pedaço de terra, no meio de cada conjunto de casas pré-fabricadas.
Na nossa obtusidade crítica temos de ter cuidado para não abrir caminho aos servos civis em batas brancas. O capital está programando um código de interpretação para circular em massa. Com base neste código, a opinião pública irá habituar-se a ver aqueles que atacam a ordem patronal das coisas, ou seja, os revolucionários, como praticamente doidos. Daí a necessidade de os colocar longe, em asilos mentais. As prisões estão também racionalizando,
segundo o modelo alemão. Primeiro, transformarão em prisões especiais para revolucionários, depois em prisões modelos, depois em verdadeiros tubos de ensaio para manipulação cerebral, e finalmente, em asilos mentais. O comportamento do capital não é somente ditado pela necessidade de se proteger das lutas dos explorados. Ele é ditado pela lógica do código da produção de mercadorias. Para o capital, o asilo é um local onde a globalidade do funcionamento espetacular é interrompida. A prisão voa desesperadamente para fazer isto, mas sem sucesso, bloqueada como está pela sua ideologia básica de ortopedia social. O “local” do asilo, pelo contrário, não tem um começo nem um fim, não tem história, não tem a mutabilidade do espetáculo. É o local do silêncio. O outro “local” do silêncio, o cemitério, tem a capacidade
de se fazer ouvir. Os mortos falam. E os nossos mortos falam bem alto. Podem ser penosos, muito penosos. É por isso que o capital tentará ter cada vez menos deles. E o número de “convidados” em asilos aumentará proporcionalmente. A “terra-mãe do socialismo” tem muito a ensinar neste
campo. O asilo é a perfeita racionalização terapêutica do tempo livre, a suspensão do trabalho sem dano para a estrutura mercantil. Falta de produtividade sem a sua negação. O louco não tem de trabalhar e ao não fazer, ele confirma que o trabalho é sabedoria, o oposto da loucura. Quando dizemos que a hora não é oportuna para um ataque armado ao Estado, estamos a escancarar as portas do asilo mental para os companheiros que estão levando a cabo tais ataques; quando dizemos que não é altura para a
revolução, estamos apertando os fechos do colete-de-forças: quando dizemos que estas ações são objetivamente uma provocação, nós vestimos as batas brancas dos torturadoraes. Quando o número de opositores era insignificante, as balas de canhão eram eficazes. Uma dúzia de mortos tolera-se. Trinta mil, cem mil, duzentos mil, marcariam um ponto de viragem na história, um ponto de referência revolucionário, de tão cegante claridade que despedaçaria a pacífica harmonia do espectáculo mercantil. Além disso, o capital é mais habilidoso. As drogas têm uma neutralidade que as balas não possuem. Têm o álibi de serem terapêuticas. Que o estatuto de loucura do capital lhe seja atirado à cara. A sociedade é um imenso asilo mental. Que os termos das contra-prisões sejam deitadas abaixo. A neutralização do indivíduo é prática corrente na totalidade reificada do capital. O alisar de opiniões é um processo
terapêutico, uma máquina de morte. A produção não tem lugar sem este alisar na forma espetacular do capitalismo. E se a recusa de tudo isso, a escolha do prazer frente a morte, é um sinal de loucura, é tempo de toda a gente começar a perceber a armadilha que se esconde por detrás de tudo isto. O inteiro aparato da tradição cultural ocidental é uma máquina de morte, a negação da realidade, um reino dos fictícios que agregou todos os tipos de infâmia e injustiça, exploração e genocídio. Se a recusa desta lógica está condenada como loucura, então devemos distinguir entre loucura e loucura. O prazer está se armando. O seu ataque irá submeter a alucinação mercantil, o mecanismo, a vingança, o líder, o partido, a quantidade. A sua luta esta deitando abaixo a lógica do lucro, a arquitetura do mercado, a programação da vida, o último documento no último arquivo. A sua violenta explosão esta subvertendo a ordem de dependência, a nomenclatura de positivo e negativo, o código da ilusão mercantil. Mas tudo isto deve ser capaz de se comunicar. A passagem  do mundo do prazer para o mundo da morte não é fácil. Os códigos estão desfasados e acabam por se aniquilar uns aos outros. O que é considerado ilusão no mundo do prazer é realidade no mundo da morte, e vice-versa. A morte física, uma grande preocupação no mundo da morte, é menos mortificante  do que é propagado como vida. Daí a capacidade do capital para mistificar mensagens de prazer. Mesmo revolucionários da lógica quantitativa são incapazes de compreender a fundo experiências de prazer.
As vezes, hesitantes, fazem aproximações insignificantes. Outras vezes, deixam-se ir com condenação, não muito diferente a do capital.
No espetáculo das mercadorias, são os bens que contam. O elemento ativo desta massa acumulada é o trabalho. Nada pode ser simultaneamente positivo e negativo, no quadro da produção. É possível defender o não-trabalho, não a negação do trabalho mas a sua suspensão temporária. Do mesmo modo, é possível defender a não-mercadoria, o objeto personalizado, mas apenas no contexto de “tempo livre”, ou seja, algo que é produzido como um hobby nos intervalos de tempo concedidos pelo ciclo produtivo. Neste sentido, está claro que estes conceitos, o não-trabalho e a não-mercadoria, são funcionais para o modelo geral de produção. Somente clarificando o significado do prazer e o respectivo significado da morte, como componentes de dois mundos opostos em luta um contra o outro, é que é possível comunicar elementos das ações de prazer sem nos iludirmos de que podemos comunicar todos eles. Alguém que comece a experimentar prazer, mesmo que numa perspectiva não diretamente relacionada com o ataque ao capital, está mais desejoso de abraçar a significância do ataque, pelo menos mais do que aqueles que permanecem amarrados  a uma visão desatualizada do confronto, baseada na ilusão da quantidade. E, portanto, o mocho poderia, ainda assim, bater asas e voar.

Em frente, todos! E com braços e coração, palavra e caneta, punhal e revólver, ironia e maldição, roubo, envenenamento e fogo posto, vamos declarar… guerra à sociedade…
Dejaque

XI
Vamos pôr um ponto final na espera, nas dúvidas, nos sonhos de paz social, nos pequenos compromissos e na ingenuidade. Todo o lixo metafórico que nos é fornecido nas lojas do capitalismo. Vamos pôr de lado as grandes análises
que explicam tudo até ao mais ínfimo pormenor. Enormes volumes carregados de senso comum e medo. Vamos pôr de lado ilusões democráticas e burguesas de discussão e diálogo, de debate e assembléia, e as iluminadas capacidades
dos chefes mafiosos. Vamos pôr de lado a sabedoria que a burguesa ética do trabalho escavou nos nossos corações. Vamos pôr de lado os séculos de Cristandade que nos ensinaram o sacrifício e a obediência. Vamos pôr de lado
padres, patrões, líderes revolucionários, líderes menos revolucionários e os que não são revolucionários de todo. Vamos pôr de lado números, ilusões de quantidade, as leis do mercado. Vamos nos sentar por momentos nas ruínas da história dos perseguidos, e refletir. O mundo não nos pertence. Se tem um amo que é estúpido o suficiente para o querer do modo como está, esse amo que fique com ele. Que conte as ruínas no lugar de  edifícios, os cemitérios no lugar de cidades, a lama no lugar de rios, e o resíduo putrefato no lugar de mares. O maior espetáculo de magia do mundo não mais nos encanta. Estamos certos de que comunidades de prazer irão emergir da nossa luta, aqui e agora. E pela primeira vez, a vida triunfará sobre a morte.

Silahlı Neşe

Oružana Radost

El Placer Armado

La joie armee

La gioia armata

Armed Joy

Die bewaffnete Freude

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