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August 14, 2010

A Dois Mil Quilómetros Daqui

Filed under: português — translationcollective @ 12:20 am

Atenas. Grécia. A dois mil quilómetros daqui. O estado grego está praticamente na bancarrota e a economia grega não consegue sair dela. Perante os conselhos dos outros países da união europeia, o partido socialista grego, no governo, decretou toda uma série de medidas de austeridade e de restruturação. Os ministros juram que vai custar “sangue, suor e lágrimas” mas que “não podemos actuar de outra maneira”.

Depois de Janeiro, estradas, portos, aeroportos, fronteiras, fábricas, linhas ferroviárias são frequentemente bloqueadas por aqueles que sabem que vão ser eles a pagar esse preço.
A manifestações continuam e ainda nenhum político parece ser capaz de acalmar e de canalizar os protestos. São frequentes as duras confrontações com a policia anti-distúrbios. Centenas de destruicões, incêndios e ataques explosivos dirigem a sua atenção devastadora contra estruturas do estado e da economia, contra todas as manifestações de autoridade.

“Sangue, suor e lágrimas.” Enquanto a policia intervém em todas as manifestações ou assembleias de forma cada vez mais violenta, partindo os braços e as pernas de centenas de pessoas, na madrugada de 12 de Marco de 2010 foi derramado sangue até à morte. Uma patrulha de polícia surpreendeu dois companheiros anarquistas no momento de roubar um carro. Seguiram-se tiroteios, um companheiro conseguiu fugir, porém o outro, Lambros Fountas, foi alvejado com múltiplas balas. Gravemente ferido, tentou ainda fugir mas foi encurralado pela polícia que o deixou sangrar ate à morte. Lambros Fountas tinha 35 anos e estava desde há muitos anos na luta contra toda a forma de autoridade. Às vezes sozinho ou com alguns companheiros, outras vezes lado a lado com outros oprimidos e rebeldes. Ele defendia-se com todas as armas que considerava úteis: com caneta e papel, com pedras e fogo, com barricadas e manifestações, com revólveres e granadas. A revolta era o ritmo da sua respiração e a liberdade fazia bater o seu coração. É por este motivo que não o esqueceremos, mesmo que talvez não o tenhamos conhecido pessoalmente. É por este motivo que a sua morte só pode acelerar a nossa respiração, aspirando à vida e abrindo caminho à liberdade pela insurreição.

Massivas montanhas e grandes rios, extensas planícies e a terra queimada da ex-Jugoslávia separam-nos da Grécia. Mas por todo lado na Europa, tal como aqui na Bélgica, os estados sentem que as coisas estão podres. Eles sentem que se pode, que é possivel que aqueles que estão sujeitos a esta podridão se libertem do jugo da resignação e que não aceitem mais nada. É cada vez mais claro que por todo o lado mais pessoas serão deitadas borda fora. Não é casual que a bófia actue agora mais rápido e mais destemidamente nas detenções, que está a ser construído um novo centro de reclusão para clandestinos e planeada a construção de 7 novas prisões. A policia protege-se contra a possibilidade da raiva.

Isto poderia dar-nos medo. Medo da prisão, medo de ser espancado pela polícia, medo de morrer pelas balas do poder, medo também de perder o pouco que ainda tínhamos. Mas a partir de certa altura já não podemos fugir à questão: viveres agachado, utilizado e atirado de cá para lá em função da economia e do controlo, pisado pela hierarquia social, arrasado pelas intermináveis filas de espera e pela rotina do trabalho-metro-cama, ou então viveres uma vida em que o teu coração livre bate com força contra toda a autoridade e em que as tuas mãos pegam em todas as armas para a alcançar.

Nada é certo, tudo é possível. A revolta que se estende na Grécia era quase impensável há uns anos atrás; nem os políticos, nem os jornalistas sabem como açamá-la. Porque a linguagem desta revolta se recusou até agora a ser arrastada na lama. Apropriemo-nos desta linguagem, aprendamos o seu vocabulário, estudemos a sua gramática, façamos dela o nosso dialecto.

Já é tempo de abandonar a atitude paralisante de se deixar cegar pelo oceano de submissão e de resignação que nos rodeia. Para não tomarmos mais como horizonte esta realidade e esta repetição, aparentemente sem interrupções, da mesma rotina, mas sim para levar o nosso olhar além desse horizonte, em direcção às possibilidades inesperadas.

Chegou a altura de soprar forte sobre os fogos que ardem.

Alguns anarquistas

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